terça-feira, 12 de outubro de 2010

Meu amor cabe num pote de geléia

Meu amor
eu guardo em pequenos potes
de conserva
na parte gelada
do meu peito.
Organizados
em estantes brancas
em longos corredores
escuros
e devidamente
identificados
com etiquetas
e letras tremidas.

Às vezes
eu caminho por esses
corredores.
Vou devagar
e receoso.
Sinto muito frio.
Sinto todos os
sentimentos
em sua forma mais
primitiva.
Meu corpo
treme.
Eu sou feliz
e eu choro.
Sou triste
e eu choro.
Sinto o suor pelas
minhas costas.
Gozo.
Ah,
como eu gozo.
E como
eu sinto dor.

E quando é noite
e enquanto mundo
inteiro
deixa
de existir
eu fico
agarrado à Lua.
Olho para baixo
e vejo a cidade.
Vejo Porto Alegre
as ruas
e tudo que aquilo
significa
em mim.
Vejo livros
discos revistas
palavras
olhares medos
amores filmes
e vejo meu sangue
correndo nisso tudo.
E me pergunto
porque eu pego esse pote
de geléia
e guardo meu amor
enfileirado
junto de outros potes
que guardam
o meu amor.
Não guardo para lembrar.
Não guardo para esquecer.
Não guardo para separar.
Guardo
para amar
olhando velhos olhos
escutando velhas
palavras
sentindo velhos cheiros
um amor
que não existe.
Guardo porque me
preenche.
Porque é meu.
Porque
sou eu.

Solto minha
mão
dou adeus à Lua
vou caindo
devagar
quase flutuando.
E quando toco
o chão
eu tenho certeza.
Seria um idiota
se não
guardasse.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Um retalho para longe de nós

Minha cabeça batia
na janela
com o balanço
do ônibus
durante as curvas.
Meu pescoço estava
mole
meu corpo
estava mole
meu coração.
Eu ia para casa
dela
e sabia que tinha que fazer
aquilo.

Ela implorava chorando
baixinho
sentada a beira da cama
com a cabeça entre as
pernas.
Ela implorava gritando
todas a vozes
e todas as razões
do mundo.

Eu sentia
a pressão do cabo
da faca no meu
bolso.
Não podia deixar
ela ir
embora
assim
tão fácil.
Meu coração.
Tudo mole.
Eu sabia que tinha que
fazer
aquilo.

Toquei a campainha
e gritei;
gritei tudo que meu
bafo
que exalava coragem
e mesa de bar
conseguia pronunciar.
Tirei a camisa
e levantei a faca
para cima da
minha cabeça.
Passei a lâmina pelo
meu peito até minha cintura.
Puxei a pele com força
e da lá
saiu uma criança.

Ele estava numa sala de aula
sentado no chão;
num círculo formado por alunos
da 3ª série
e uma professora.
E todos riam
dele.
Todos riam daquele
menino que sentia
toda a indiferença
e todo ódio
que não existia
ali.
Ele sentia
não existir
e o cheiro do seu
medo
flutuava por entre
nossos corpos.
Não tinha
ainda
vivido
de verdade
e mesmo
assim
tinha medo de morrer sozinho.
Não tinha beijado
uma mulher
e sentia que nunca
mais beijaria.
E enquanto seus colegas
distribuíam abraços
ele sentia solidão
e não sentia ser tocado
de verdade.
Sentia nojo;
o nojo que vinha dos
outros
para sua direção
para sua ruína.

Ela assistiu
isso tudo
segurando forte
no meu braço.
Vi seus olhos
molhados
de felicidade.
Vi seus olhos
e eles olhavam
para além dos
meus.
Me segurou em seus braços
me apertou forte
me mordeu
me beijou
me lambeu
e soluçou ao dizer que
nunca estivemos
tão
próximos.

Enquanto isso
as paredes
choravam.
As paredes
que sabiam tudo
choravam porque sabiam
que nunca estivemos
tão próximos
de dizer
adeus.



segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A minha torre de babel

Meus joelhos
doem.
Há dias
em venho levantando esses
troncos
pregando
e me machucando.
É uma tarefa difícil
construir esse pedestal
no qual eu vou
suavemente
instalar minha cama
e ver o mundo
por cima.
Eu já não aguento
mais.
As feridas
não fecham
levei algumas facadas
e não tenho a aparência certa
para o trabalho.
Nunca soube pregar,
quer dizer,
não era algo natural em mim.
Era algo forçado
e doía como
chicotadas numas noite
quente de
primavera.
Mas eu vou aprendendo.
Eu vou.

E agora eu estou aqui
diante desse pedestal
que atravessa as nuvens
e que eu preguei
prego por
prego
sangue por
suor.
Dou a última martelada
e desmaio
em cima da cama.

As horas passam
por baixo dos
minutos aqui
em cima.
Nada precisa de um
sentido.
Ainda não abri meus olhos
mas o vento
tem um perfume
que entra por cada poro
e goza em todas as células
do meu corpo.
Então
eu sinto uma mão tocando meu rosto
leve suave
a mão de todo aquele
cheiro.
E quando
vejo
o que vejo
é um sorriso
que faz toda aquela estrutura
tremer
e se curvar
porque é tudo que se
tem
para fazer.
E ela se joga
para cima de mim
como um trem
e a gente se bate
como sabão
espalhando
gritos feridos e
orgasmos.
Ela é um bambolê
de seda e
carne
que gira por todo meu corpo.
E eu me atiro para dentro
daquilo tudo
colado em mim.
E a gente se torce
geme
grita e sussurra.
Eu quero estar
em todos os lugares
que ela esconde.
Quero morder
engolir
ter ela
dentro de mim.

Não me dou conta
do mundo que
ficou para
baixo
das nuvens.
Não me dou conta
de como só estar aqui
em cima
é maravilhoso.
Não me dou conta
porque o jeito
que ela me faz sorrir
enquanto não consegue
manter os olhos
abertos
é que é maravilhoso.

E quando eles fecham
por completo -
aqueles olhos
que escorrem mel e lágrimas -
me agarram
e pedem para que
eu nunca me mexa.
E
enquanto eu obedeço
olho para cima
areia voando
nas dunas
de um
deserto estrelado.
É noite.

Por algumas horas
eu fecho os olhos
e sonho que estou acordado.
Mas a calma nunca
dura
muito.
Escuto passos
conhecidos
e pesados.
Meu velho amigo
lenhador.
Ele traz consigo
um machado de
cinco metros
manchado de sangue.
Ele é inseguro
tem medo
foge
trai
machuca
e seu passatempo
é derrubar os pedestais
que eu construo.
Eu vejo sua enorme
barba
suja de cerveja
caminhando
devagar.

Quebro minha promessa.
Minhas pernas tremem.
Me mexo.
E meu sangue
tem cheiro
e gosto de pavor.
Cair lá de
cima
não me assusta,
não.
Mas a idéia de perder
aquilo
me machuca
me corta
me apodrece.

E a vida vai
assim
sendo demais
para suportar.
Sendo tão boa
que deixa triste.
E com tanto medo
da felicidade
me jogo
do pedestal
sem nem saber
se tinha chance
de ser derrubado.

E enquanto eu sinto
minha vida escorrer
para fora do meu abdômen -
semi-aberto
pelo impacto -
eu fico rezando
para que ela venha
me levantar.

Eu fico rezando
sem acreditar.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Enquanto eu fico pendurado aqui nessa corda

As minhas mãos
ardem
quando eu escorrego.
Eu estou pendurado
numa corda
segurando firme
morrendo de medo
de cair
e não sei bem
porque.
Olho para baixo
não vejo nada.
Não sei o que há
lá.
Pode ser qualquer
coisa,
mas é a minha vida,
sabe?
E, simplesmente,
não sei se quero
me jogar para o novo.
Não sei se vale
a pena
me prender ao desconhecido.

Eu sei que haverá mulheres
lá.
Mas elas irão me fazer
sorrir?
Eu sei que haverá vento
no rosto.
Mas eu conseguirei fechar os olhos
e aproveitar?
Eu sei que haverá abraços.
Mas eles serão de verdade?

E mesmo com todas as dúvidas
e com todas as dificuldades
eu tenho uma
certeza.
Certeza que eu
sou livre.
Mesmo pendurado
aqui
nessa corda
eu sou livre.
Livre porque eu posso
abrir a mão.
Livre porque eu posso
continuar
segurando.

Eu sou aquele que acha
um absurdo jogar lixo no chão.
Que as pessoas que o fazem
deveriam ser penduradas em praça
pública
pelo desprezo ao coletivo.
E, mesmo assim
às vezes
eu jogo.
Eu sou aquele que luta
pela verdade.
E grita ser a coisa
mais bonita que se
pode tocar.
E eu minto
por amor.
E minto
até para mim.

E pelo fato
de não precisar impor
nenhum tipo de
sentido ao que
eu sou
e ao que eu grito
eu tenho uma certeza.

Eu sou
livre
pendurado
aqui
nessa corda.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Duas horas no escuro

Eu era novo
-3 ou 4 anos-
e tudo que ia
além do que podia ver
era um clarão
flutuando pelo Universo.
Nada acontecia
se não acontecesse
para mim.
Tudo dependia de mim
para ser.
Um sorriso
só era um sorriso
se eu podia vê-lo.
Um beijo, sem mim,
era nada.
Ninguém chorava
se não fosse por mim.
Ninguém se incomodava
se eu não estivesse
por perto.
E quando eu não estava por
perto
o mundo andava em
câmera lenta
esperando eu entrar em cena.

Tinha essa mania
de esmagar formigas
com a ponta do dedo.
Me divertia.
Não por matar
mas por poder.
Porque eu era Deus
e eu criava
e destruía.
Às vezes, comia
terra
também
porque era a minha terra
porque eu podia.
E sozinho
sentado a beira
do formigueiro
o mundo inteiro
esperava
para me servir.

Agora, eu estou deitado
na minha cama
com um cinzeiro apoiado
na barriga.
Ninguém por perto.
Lembro das mulheres
que passaram por aqui
e logo
sinto-me
deixar
de existir.
Eu ainda as vejo.
Elas estão em camas novas
com sorrisos novos
enquanto eu não
existo
e sinto a minha infância
escorrer por entre
meus dedos
direto para
o ralo.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Caminhando por unhas vermelhas e de olhos fechados

Eu desço as escadas
do trabalho
e sinto uma liberdade
patética tomar
conta do meu braço
e espalhar-se pelo
meu corpo.
Acendo um cigarro
e meu cigarro solta
uma fumaça colorida
que fica rodando a minha volta
e me leva para onde eu vou.
Eu lembro de alguns poemas
e de suas palavras
que são tão parte de mim
quanto meu café da manhã.
E , meu Deus, eu grito
poesia
e não faço idéia do que seja
isso
de verdade.
Eu quero ir para casa
mas não tenho pressa
tomo o caminho mais longo
o favorito.
Passo por um poste,
um totem;
marca da selvageria
que me fez
assim.
Vejo-me ali
com um osso na mão
batendo e me divertindo
descobrindo coisas novas
me descobrindo.
Escuto minha risada primitiva
e ácida.
Ó, meu Deus, esse poste,
esse totem,
é parte de mim.
E eu dou um pulo
direto para o ano de 2010
e quase gozo
pensando nas imagens da noite anterior.

Caralho, minha vida passa
na mão dessas mulheres que passam por mim.
E eu dependo delas
para sorrir
para cantar
para beber.

Dou um tiro para cima.
E esqueço que elas
existem.

Mas eu lembro, lembro
do jeito que ela me olha de noite,
e eu lembro do seu cabelo loiro
e do seu cabelo ruivo
e de sua pele morena
que é tão clara
quanto leite.
Eu sempre lembro.
Lembro de como ela é alta
e encosta a cabeça no
meu peito
enquanto me abraça.
Ela chega perto de mim
e meu corpo inteiro
treme
e ela treme junto
e me puxa para dentro
dela.
Lembro do barulho que ela
faz ao engatilhar aquele
sorriso -
calibre 38.
Lembro dos seios
que cabem
e escorrem para fora da minha boca.
E os olhos
que têm todas cores do mundo
e choram todos os rios
que já vi
rios
de amor
tristeza e felicidade.
Lembro do jeito que ela
segura o meu pau
sempre
com uma mão diferente.
Lembro da indiferença
e da total devoção.
Lembro dos cachos e
daquele cabelo
absurdamente
liso.
Lembro da calcinha
no chão.

E, quando paro de pensar,
vejo minha casa
pego minha chave
no bolso direito
e quase gozo ao
atravessar a rua.
E o mundo passou por mim
passou em branco
enquanto ela
e ela
e ela
faziam eu não ver o mundo a minha
volta.
E, sinceramente,
não sei se
perdi
alguma coisa
ou se ganhei.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Uma tarde presente no passado

Era um fim de tarde gelado
e eu caminhava pelas ruas
do Menino Deus*
e cada pedra no chão
me conhecia
como irmão.
Todas aquelas paredes tinham
marcas minhas
e tudo era tão meu
que chegava a doer.
Lembrava-me da minha
infância;
de como eu descobria o mundo
caminhando por aquelas ruas.
Sentia o vento
cortando meu rosto
e o barulho das rodas
batendo no chão.
Sentia tudo que era tão
velho
e tão emocionante.
Lembrava das meninas
e do medo que tinha delas.
Lembrava das primeiras tragadas
dos primeiros goles
e de como tudo era tão emocionante
e selvagem.

Encontrei uma parada de ônibus
acendi um cigarro
e escorei-me na parede de uma
tabacaria.
Um homem que vestia
uma capa preta
e tinha um grande bigode negro
gritava, com uma fala nordestina,
as maravilhas da juventude.
Palavras que faziam tanto sentido que
e eu não as sentia de verdade.
Não sentia por fazer parte daquilo
por causa dessa juventude que
corre em mim.
E então
eu senti um medo que subia
as minhas costas.
Um medo de não conseguir ver isso que
está em mim
agora.
Medo de que minha vida
fosse assim
uma série de entusiasmos atrasados.

Então, peguei um pequeno baú
e coloquei meu passado
e meu futuro
ali dentro.
Tranquei com um cadeado
acendi uma vela
ajoelhei-me
rezei
e deixei aquilo
tudo
num pequeno altar
ao lado da minha cama.

Vi um rosto conhecido
caminhando em minha direção.
Algo diferente;
uma certa serenidade assustadora naqueles
olhos.
Ele morava na rua
e gritava "babudo"
enquanto brincava com a barba
e dizia que a vida era o suficiente.
Agora, sem barba
e terrivelmente sóbrio
não tinha o velho brilho nos
olhos.
Era triste como
o resto dos carros que passavam
sem deixar marcas.
Pediu-me um cigarro
e eu
cuidadosamente
entreguei três.
O babudo agradece,
disse caminhando
enquanto eu podia ver
sua barba crescer e o velho
sorriso alucinado
brotar
no seu rosto.

Um carro bate em outro.
Nada sério.
Dois homens irritados
saem
batendo suas portas
e estalando seus punhos.
Meu Deus, eu penso,
ela tem esse jeito de fazer o
beijar, lamber, foder,
abraçar, dormir, acordar
coisas tão naturais e
lindas.
E lindas porque são naturais
e naturais porque são lindas.
E eu conto isso para os dois
homens.
Conto das mulheres que têm
o vestido verde
como manto sagrado.
De como elas têm
esse sorriso
que nos deixa paralisados e
idiotas e
patéticos.

Eles abandonam
os carros
no meio da rua
e eu
deixo minha parada
sem olhar para trás.

Ela puxa meu braço
toca uma pedra no chão
e a gente pula amarelinha.
E eu vivo o presente
como alguém
que vive a morte.
Eu vivo cheio de
tubos
e esperando que algo
aconteça
enquanto eu pulo
amarelinha
e escorrego para
dentro dela.
E eu durmo ali
agradecendo aos
deuses
que meu passado
e futuro
são coisas
tão distantes quanto
próximas.


*bairro de Porto Alegre





quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Tudo ao mesmo tempo

Sinto-me alheio
a isso tudo
às vezes
sou um espectador de
um filme de terror
e o protagonista
sou eu
e eu grito
da sala do cinema:
não abra essa porta!
E, mesmo assim, eu
abro
e penso em pular pela janela
não mais para morrer
mas para provar que eu
consigo voar.
Sinto-me preso ao passado
e abraço o futuro
como alguém que abraça um
deus.

E eu sou o deus do
meu mundo
senhor de mim.
Eu sou a árvore
do seu quintal.
Sou um cachorro
brilhando ao Sol.
Sou um pouco
de tudo.
Sou o futebol.
Sou um idiota
de Lars von Trier.
Sou um girassol
de Van Gogh.
Sou tudo o que espero.
Sou a boca que vai embora
e traz aquele sorriso
que desaparece
na luz daqueles olhos.

Nunca entendi pessoas
que escalam montanhas.

Sinto-me tão falso
às vezes
sinto-me mentir para quem sou
para o que sinto
e fazer tudo aquilo que não queria
pelo bem
de outros.
Mudo o que sou
saio de mim
e torno-me
outro.
E sinto-me igual a antes
sinto-me de verdade
e sorrio do topo dessa
montanha feita de cinzas.


Sinto tudo;
a dor de ver deuses
esquecidos;
a felicidade de encontrar
sorrisos
perdidos;
um choro que
me engole;
um sorriso
que engole o mundo
todo;
pena de me ver ao
espelho.
E quando me olho
penso,
não é grande coisa
mas é tão de verdade.
E o espelho do meu banheiro
quebra ao som das minhas
gargalhadas
e todos os espelhos do mundo
caem ao chão
ao som da palavra que sai
do meu estômago.

Sinto-me tão triste
e sinto-me tão bem ao mesmo
tempo.
Sinto meu corpo
cheio de chagas
e sinto as feridas
fechando devagar.
Sinto-me,
porque
é a unica maneira
de sentir tudo
que eu quero
ao mesmo tempo.

domingo, 8 de agosto de 2010

O vestido de todas as flores

Seu nome é
Rose
e quando eu quero chamar ela
eu chamo
Rosa.
A gente mora
juntos
e volta e meia
Rose vai embora
enquanto eu grito
Rosa!
uivando da minha sacada.
E ela volta sempre
e sempre volta
diferente.

Sempre com aquele
mesmo vestido
verde
floreado
com todas
as flores do mundo
e nenhuma
rosa.

Ela é o barulho do
vento
numa noite quente.
Ela tem um sorriso
de um anjo
um sorriso
mais perigoso que de
um demônio.
Ela sabe tudo
e não entende
nada.
É uma puta.
Imaculada.
Ela machuca fazendo
carinho.
Uma santa.
Uma santa que faz
cansar.
Um santa que se
abandona.

E eu canso de
Rosa.
E Rosa vai embora.
Mas ela sempre
volta
com aquele mesmo
vestido
repleto de rosas.

Seu nome é
Rose
e quando eu quero chamar ela
eu chamo
Margarida
que me responde
indiferente a isso tudo
sem se importar com nome
ou com a flor que lhe
falta
no vestido.

domingo, 1 de agosto de 2010

O dia em que o teto desabou

Era um sábado chuvoso
eu dirigia
com uma nuvem verde
correndo pelo carro.
Observava
com os olhos brilhando
a chuva dançando no asfalto.
Trocava as marchas
rápido
e dirigia devagar
procurando
sem muita ideia
alguma coisa para fazer.

Vi um shoping a
algumas quadras.
Pensei que seria legal
tomar um café
e observar as pessoas
fazendo biografias imaginárias.

Era liquidação
até 50%
e talvez eu tenha
cometido um erro,
pensei.
Casais passeavam.
Os homens carregavam sacolas
e usavam blusões pendurados
como macacos carentes
no pescoço.
As mulheres eram bonitas
algumas até lindas
e não tinham brilho
algum.
Eles não estavam juntos
ou vivos
de verdade.
Eles estavam lá
porque achavam que deveriam
porque era aquilo que ensinaram que
deveriam
fazer.
Não se tocavam
mãos e pés e corações
separados por alguns
passos.
E eles corriam a minha volta
pulavam e gritavam e
riam como abutres
e diziam que ali
estava o meu futuro.
Tentava fazer eles calarem a
boca.
Era inútil.
Eu seguia caminhando
com os casais de mortos
me seguindo
e agora
sussurravam que eu era
um deles.
Decidi que um café
não era para mim
no momento.
Decidi que eu precisava de
uma cerveja.

Fui caminhando até a praça
de alimentação.
E quando eu cheguei lá
Todas aquelas pessoas
e todos aqueles
milhares de olhos
me encaravam.
Começaram a bater
copos, talheres, pratos, cabeças
na mesa
e como uma torcida
de futebol
cantavam:
você é um de nós!

Eu estava apavorado
pronto para sair correndo
para ir embora daquele lugar
mas eu sabia
agora
eu precisava de uma cerveja.

Fui caminhando
pé após o outro
analisando
cada passo.
Fui devagar
acompanhado por
todos aqueles olhos.
Cheguei ao restaurante
e pedi um chope
grande.
A mulher
que trabalhava no caixa
tinha os olhos iguais a um
umbigo
pintados de branco
e me informou
que só acharia
naquele lugar
chope pequeno;
300ml.
Eu sabia que aquilo não
seria
o suficiente.
Eu sabia que precisava de mais.
E sabia
também
que eu não gostaria de voltar ali
para pedir outro.
E quando contei a caixa
que precisava mais tempo
para pensar o teto
desabou.

Eu olhei para cima
e vi um monte
de pêlos brancos
pendendo do céu.
E quando eu entendi
que aquilo era uma barba.
Me ajoelhei no chão
fechei os olhos
e agradeci.
Agradeci
pelas mulheres que são
de vestido verde.
Agradeci que eu não era parte
daquilo
e sabia disso.

E quando eu abri
os olhos
de novo
tudo estava normal.
O teto estava inteiro
ninguém cantava
ou batia a cabeça na mesa
ninguém olhava para mim.
Exceto a mulher do caixa
com seus olhos pintados
esperando uma resposta.

Bem, acho que eu vou querer
dois pequenos,
respondi.
Ela tentou sorrir
sem sucesso
e disse para eu esperar a minha
mesa.

Alguns minutos depois
eu tomava meus dois chopes
intercalando os copos
em goles pequenos
sorrindo e observando a caixa que
me atendeu
bater
a cabeça na parede.

domingo, 25 de julho de 2010

O meu dia de Jesus Cristo

Eu descia a rua
passando as marchas
com paciência
e soprando lindos anéis
de fumaça.
Queria ir até
onde a vida me deixasse
levantando copos e urrando
obscenides
sem sentido
para a Lua.
Minha cabeça balançava ao
som do rádio
e meus olhos
úmidos
de prazer
refletiam faróis
e amores que passavam.
Então
eu o vi.
Duas quadras a frente
empurrando sua moto.
Alguém que
perdia a sorte
e buscava alguma coisa.
Vou ajudar esse infeliz,
pensei.
Pensei também
nas estatísticas
e como eu tinha chances
de ser morto
ou pior
estuprado.
Eu sou uma pessoa
boa
queria fazer alguma coisa
oferecer carona
e mesmo não entendendo nada de
motos ou motores
eu podia tentar ajudar.
E, caso levasse um tiro
ou uma facada,
Deus saberia que eu morri
sendo bom.
Talvez o melhor!
Passaria direto para o Céu
escapando
da burocracia do purgatório
e do enorme pau
violador de Satanás.
Seria um anjo voando
e espiando mulheres tomando banho.
Diminui a velocidade
e quando passei ao seu lado
ele virou para mim.
E quando nossos olhos
se cruzaram
lembrei-me
que não acredito nessa
merda
de
Céu ou
Inferno.
Passei a marcha e acelerei
em direção do
meu paraíso
que vestia, por sinal,
um vestido verde.
E ele ficou lá
carregando sua moto
e eu carregando minha vida
e continuamos
iguais
abandonados
como o resto do mundo.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Como um dia qualquer

Era um dia que não dizia
nada
quinta-feira
e só.
Eu conversava, bebia
e sentia saudade.
Então, ela passou por mim.
Ela que já tinha passado
antes
e tinha ido embora.
E a saudade
não era dela.
A saudade era minha
e de mais ninguém.
E enquanto ela passava
a mão
pelo meu rosto
a saudade
ficou com ela.

Ela me puxou pela
mão
e levou-me para sua
casa.
E a saudade
tinha ido embora.
Guardada em algum
lugar.

Eu estava deitado
saciado e ofegante
enquanto ela esfregava
o rosto em meu braço.
Puxou-me para
perto dela
e pediu para que eu contasse
uma história para ela conseguisse
dormir.
Eu ri
e ela riu também.
E todo esse amor guardado
que eu tinha dentro de mim
tinha que ir para alguém.
Então
apesar de tudo, comecei,
ela era uma menina ruiva, eu disse,
e achou um cavalheiro barbudo
na beira de um rio
e quando ela pediu fogo
ele se entregou...
E fui contando essa
história
nossa história, que não era nada.
E ela se excitava e agarrou-me
pelo pau
e puxou-me para dentro dela.
Ela gemia e mordia meu ombro.
Gritava e eu gritava junto
em silêncio.
E quando eu cheguei ao fim da história
ela gozou
e gozei também.

E nada fazia
mais
muito sentido.