quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

cuca holandesa

todo dia eu parava
no posto de gasolina
para comprar cigarros
e todo dia havia
uma uma cuca holandesa
exposta na vitrine
e na maioria dos dias a gente
pedia um belo pedaço e
comia na cama.

então
ela entrou no avião
e foi embora.

dois meses passaram
comprando cigarros
todo dia
no mesmo posto de gasolina
e nenhuma cuca holandesa
exposta
na vitrine.

e todo dia
eu olhava os bolos
tortas
e nunca a
cuca.

até que esqueci dela.
do gosto ou
como se parecia.

até que
num dia desses
eu a vi
quieta no canto da vitrine
e pedi um pedaço.
só pela risada.
só por brincar de lembrar.
e
deitado na cama
eu dei a primeira garfada
senti ela
deitada sobre mim
tirando o garfo da boca
deixando farelos escapar pelo queixo
a cuca
fazendo ela se contorcer em
felicidade
olhando para mim e rindo
do meu sorriso.
porque com a cuca
era fácil rir ou não se
sentir
cansado.

então
senti uma vontade de
de alguma forma
contar isso para ela.
sobre a cuca
e como o gosto continuava igual
e sobre como
tudo aquilo que sobrava
é uma pequena poça de água
da chuva
em um dia de outono.
mas

não.

eu apenas dei mais uma
garfada
e guardei o resto na geladeira.

acendi um cigarro e
- o segredo não está no que acaba
ou no que pode ser
mas onde há
algo que sobra
no final -
algo dentro de mim
sentiu vontade de explodir
uma porta batendo
um grito na escuridão
pássaros voando
trovões e raios de sol:

um sorriso que escapa da boca.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

olhos fechados

às vezes ela é loira
e me assopra o rosto quando
depois de suor e gozo eu
sinto calor deitado na cama
e me esconde em seu sorriso
para que tudo pareça simples
como descer o escorregador da piscina
(mesmo que algumas pessoas já
se machucaram
fazendo isso-
todos vimos os vídeos da internet)
e simples assim
afunda seus dedos em minhas costas
geme e me liberta
goza me fazendo rir


às vezes ela é ruiva
e tudo a sua volta
parece ter energia
como se todos estivessem balançando
os braços para o ar
rindo e cantando
totalmente alucinados
sem a necessidade de lsd
porque tudo é leve e divertido
somado ao leve balançar
da sua cintura

às vezes ela é morena
e eu consigo experimentar
suas palavras que são tão
doces vindas de um rosto inclinado para
baixo como uma menina de olhos
tão brilhantes que não consigo
identificar a cor
mesmo que eu saiba que todos
os olhos têm cores diferentes

é difícil enxergar quando se está apaixonado
eu pensei
junto de todas elas

perco cinco minutos
orando por elas
por
todas essas mulheres
lindas em sua própria confusão
loucas em sua sanidade
pedaços de mim
que abriram seus corpos
que abriram suas mentes
que me deixaram entrar
que ainda caminham comigo

-sombras da minha escuridão-

direto
para uma nova paixão

por isso sigo de olhos fechados
que é para estar preparado
para quando eu chegar.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Yin-Yang

Houve uma época em que eu saia com duas mulheres:
uma loira, outra morena. E todo dia
eu escutava o mesmo cd
no rádio do carro. Hora com uma
hora com outra. Fazia sempre sol, e eu me sentia
muito calmo, dirigindo pelas ruas de óculos escuros.

As horas passavam preguiçosas. Sem problemas.
Sem ansiedade.
Uma enchia qualquer sutiã. A outra, cabia na boca.
Uma fazia com que eu não sentisse tão mal
e eu já não era ridículo por não saber o que fazer
com as mãos, parado, esperando um café.
A outra me fazia carinho durante a noite.
Fumaça e cerveja. Ela com as mãos no meu peito
os dedos entrelaçando pêlo e suor.

Me aceitavam. As duas.
E se entregavam, com todas as suas
armas no chão. Tudo tão simples e bom.
Nós, dirigindo em direção do Sol.
As mesmas músicas.
Uma e a outra.

Só estar com elas, no mesmo quarto,
na mesma cama, fazia com que eu me sentisse
bem. Satisfeito com a crise das bolsas mundiais.
Sem medo do que vinha pela frente. Segurando
meu coração, do alto da montanha, para quem
quisesse ver. Completamente nu.

Mas isso foi há muito tempo. Eu já morri
muitas vezes desde então.

Acendo um cigarro e abro o jornal.
Leio sobre uma pessoa que não conheço
que está com câncer.
O mundo inteiro sai dos trilhos
e pessoas começam a cair
como chuva
da minha janela. Anjos descem do céu
exigindo vingânça. Cachorros comem a carne de cachorros
pelas ruas. E os homens que batem no chão
lutam pelas sobras.

Ligo o rádio para entender o que está
acontecendo. Sintonizo nas notícias
que, por algum motivo, toca aquele cd do meu carro
e o cantor diz:

da próxima vez.



sábado, 12 de novembro de 2011

O jogo

Quando você se dá conta, está deitado num campo de areia
uma espécie de Coliseu particular.
Você carrega em seus braços um pano, como um cobertor
que você mesmo teceu, mas não sabe porque.
Não consegue entender aquilo tudo, pricipalmente
quando, sem esperar, uma mulher cruza todo caminho
até você. Ela corre e derrama mel e sangue dos olhos.
Instintivamente, você sabe que ela quer lhe machucar
que ela corre para a sua destruição, para lhe matar.
Então você consegue desviar algumas vezes;
você é rápido e tudo que quer é ir embora de lá.
Você não entende nada, mas tem seu coração.
E você tem medo, você quer apenas um cigarro e
uma cama para que possa descançar.

Até que, numa de suas investidas, ela
para há dois metros de você e
ela tem olhos luminosos
e você olha aqueles olhos e
a boca dela sofre uma pequena elevação no encontro dos lábios
e você olha aquela boca e
suas pernas escondem alguma coisa santificada
e você olha aquelas pernas e
seu cabelo cai sobre os ombros
e você olha aquele cabelo
e sente um frio subindo a espinha
parando no peito e causando algumas
dores abdominais. Você acha que vai vomitar.
Mas não vomita. Você apenas entende tudo.
Entende porque teceu aquele pano
porque está ali e, pricipalmente, porque ela quer
lhe matar.

Você espera ela cansar e corre até o extremo oposto
do campo. Ela de um lado, você do outro.
Você respira fundo algumas vezes. Toma coragem.
Ela vem correndo contra a sua direção e você corre
até ela. Algo em torno de 500 metros até
se encontrarem no meio do caminho.
Você levanta seu pano até à cabeça
com a barra arrastando no chão.
Quando vocês se encontrarem, irá jogar o pano
em cima dela. Cobrindo-a totalmente. E irá dar
um nó na parte das suas costas, para que não
se livre tão fácil e para que você a segure melhor
no colo ou deitada.
Seu coração bate mais forte a cada passo.
Você nunca antes havia
corrido de pau duro. Com o coração saindo pela garganta.
Vocês se aproximam e os olhos dela queimam os seus.
Ela ri. Você está em pânico. Mas vai conseguir,
você sabe disso. É a sua vez. Você entendeu o jogo todo.
E quando você vai jogar o pano
ele se prende no pé dela,
que deu um passo a mais. Sem que você pudesse
imaginar ou entender.
Então você cai no chão. E a areia lhe corta inteiro
pernas, braços, peito, rosto, tudo.
Você está cheio de marcas que irá carregar
para o resto da vida.

Então você levanta, e nem a mulher ou pano
estão alí. Você está sozinho e não consegue
ver nada a sua volta. Nada. Até o horizonte
nada.
Você respira fundo e, como num milagre,
acha uma carteira de cigarros no bolso.
Você acende e dá uma longa tragada
realmente se esforçando para sentir
alguma coisa. Uma lágrima rola pela bochecha.
E você se dá conta que ainda
tem seus cigarros, sua cerveja e que vai conseguir
algum dia tecer outro pano, dessa vez
mais forte e curto.
E, de algum modo, você sabe que em breve
outra mulher aparecerá por alí.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

meus tênis

eu atravesso a rua sentindo vontade de vomitar
e não pelos litros de cerveja que joguei para dentro
de mim; mas pelo peso nas costas que deixa meu
queixo grudado no peito e me revira o estômago
enquanto um carro vermelho quase acerta minha
perna direita e me joga para o lado esquerdo
da rua, acabando com tudo - dor e felcidade -
antes que eu possa decidir ir caminhando para casa

tudo é só expectativa, eu penso
chegando do outro lado
da calçada
são e salvo;
me sentindo insano e perdido -
eu caminho:

os postes da joão alfredo brilham como tochas
durante a madrugada e vestidos verdes;
mesmo que os olhos dela brilhem ainda mais,
eu escolho a rua e sigo sozinho; meus tênis como
trampolins me jogando cada vez mais alto
a cada passo mais alto até que eu consiga
pular por cima dos prédios da cidade baixa
e ver todo o caminho até a zona sul de volta
ao meu coração

e quando minha cabeça ultrapassa os limites
das nuvens eu vejo meus potes e toda
a geléia -minha substância- transbordando para
fora deles, até o chão; chego a
pensar que a morte é uma coisa marvilhosa
não com olhar suicida de antigamente
- que acreditava ter -
mas penso na morte como a gargalhada final;
o momento em que nada mais importará e eu consiguirei rir
de toda minha vida: um filme ordinário
da sessão da tarde;
como rio das vergonhas da minha infância
cheias de palavras e frases que deveria ter omitido
com vontade de gritar para que as memórias
pulem para fora de mim sem que ninguém perceba
que já estiveram lá;
então, vendo os potes transbordarem
eu penso que deveria escrever um poema
sobre mim, sobre como eu sou maravilhoso quando
não há ninguém por perto; como eu posso ser mágico
e até pular por cima das nuvens apenas com meus tênis
sonhos, amores e alguns goles de cerveja;
penso também que, quando estiver escrevendo,
não irei carregar comigo mulher alguma
e que nenhuma boceta vai aparecer nas minhas linhas
enrolando minhas palavras e ideias
porque a beleza e a naturalidade e a esperança e
tudo que eu quero carregar em mim
não vêm só de pernas braços e sobrancelhas
mas do que só eu posso ver
de olhos fechados no escuro.

chego em casa
e, como era de se esperar,
falho miseravelmente e caio de cara no chão
direto das nuvens como um anjo pecaminoso
que não aprendeu a desistir
e sabe muito pouco do que se passa lá fora
quando não está presente.





terça-feira, 25 de outubro de 2011

abraços orgasmos e sorrisos

não quero minhas palavras cheias de intenções ou
sorrisos premeditados prazeres monótonos
aviso prévio arrastado por de baixo da porta
quero ser o resultado de toda a naturalidade
de gestos em manhãs sonolentas de domingo
suspiros cor de terra molhados de chuva
quero ser o senhor da minha confusão e ter o direito
de desistir de tudo que me for capaz
para abraçar o necessário
esperando ansiosamente que a beleza natural
seja despejada em mim justamente quando não estiver preparado
fazendo acabar a rotação dos planetas
no ponteiro avançando um segundo no relógio da cozinha
despertando a selvageria que não me liga aos pontos onde
eu me prendi ao chão para que possa
desistr a qualquer minuto para só então encontrar
a menina de olhos brilhantes e faca na mão
que tem a malícia para matar e
ainda não se acostumou a ser linda
andando descalça pela casa
sem saber o que isso realmente significa
ou sem impor significado à meia-calça verde
pendurada na maçaneta de madeira do meu quarto
para que no simples movimento do relógio
o ponteiro definitivo
eu tenha a capacidade de acreditar que um novo mundo é possível
e que a bondade é tão simples quanto acender um cigarro

quero a vida na naturalidade dos movimentos
gestos e intenções
onde a arte diga alguma coisa e o amor
seja apenas abraços orgasmos e sorrisos
servidos com gelo
dependendo do meu humor.




segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Minha janela

Todos os quartos de todas as mulheres
suas camas e colchas e lâmpadas e cestas de lixo
e a falta de intenção ao pegarem no sono
enquanto eu sento na janela, acendo um cigarro
e olhando para baixo
tento entender a coisa toda.
São todas tão diferentes, mas não consigo deixar
de perceber os pontos em comum:
a elegância com que vão ao banheiro
parecendo ditadores quando saem
e tiram a roupa.
Eu sento na janela e observo
fingindo entender alguma coisa
enquanto elas dormem e sonham com
balas de hortelã.

Mas você
você não tinha janelas
só portas.
Então restou apenas o meu quarto
e a minha janela
de onde
gritávamos enquanto o mundo inteiro
parecia dormir profundamente
afundando em seus prórpios pesadelos.
E F.O. já não parecia ter o senso
de novidade que sempre me encantou
e uma caminhada por NY não
parecia mais poética que por POA.
C.B. parecia ter deixado alguma coisa escapar
por entre os dedos enquanto a Musa
o enganava em bares
tão terríveis quanto ele sempre escreveu.
E.P. se tornava mais fascista do que nunca.
L.P. não parecia aquele sonhador maravilhoso
que morreu tentando abraçar a Lua.
A.A. era só forma e os versos íntimos
não faziam mais sentido que o meu café da manhã.
Eu começava a pensar que na verdade
a coisa não vinha da vergonha
e J.W. tinha perdido alguns versos
pelo caminho.
E não conseguia mais esperar os
golpes tão fortes
que C.V. havia me alertado,
mesmo com eles dobrando a esquina.

E eu não me importava com a sorte
ou com como as palavras deveriam soar, muito menos
com o impressionismo, lirismo,
surrealismo, realismo ou com machismo.
Nenhum ismo.
Exceto talvez pelo amadorismo,
porque assim eu poderia fazer uma piada idiota
e talvez arrancar um sorriso seu
e esquecer todos os meus problemas
dizendo o quanto eu gosto de você
mesmo sem coragem
porque tudo isso
- nós, a janela, as cestas de lixo, a vida -
no fim
é só uma grande piada.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

detalhe

ela era linda
mas eu nunca mais consegui
escrever sobre ela.
e, às vezes, eu fumo um cigarro
numa segunda-feira a tarde
e penso sobre isso.

nós, a estrada, nossos acontecimentos
fluiam de forma não-linear.
poética, sem pretensão
ou intenção.
cheia de redenções
embaixo da porta da igreja.

perdia a fúria da tela em branco.
sem esforço.
assim como a vida
vagava
pelas ruas que
ganhavam novos significados
porque de alguma forma
ela era possível.

eu dancei, meus amigos
eu dancei!
dancei sem vergonha alguma
e senti uma bala perfurar a minha
barriga.
e, pelo furo, eu sentia um vento gelado
felicidade e baunilha
correr para dentro de mim.
e o vento abraçava meus brônquios
como fita de seda verde.
e eu exalava a felicidade de um baseado
às 8:30
ou de uma cerveja no final da manhã.

perco o ar.
solto a fumaça para o alto.

tudo isso, eu penso, porque
ela era linda
e isso
nela
era apenas um detalhe.



sexta-feira, 17 de junho de 2011

conversa

ela me olha de baixo, abrindo
meu zíper.
seu corpo
inteiro
vibra e se contorce.
tira meu pau
do descanço das calças.
desliza a língua
do início ao fim
até enfiar tudo na boca.
então, me olha
e enfia tudo de novo.
pego seus braços,
puxo para cima e
enfio minha língua naquela
boca.
e depois de um tempo
ela acende um cigarro
apoiada no encosto da cama.
me olha
inclinando a cabeça 53º
a direita
e começa a falar e falar
e falar
sobre o terceiro paralelepípedo -da calaçada para a rua -
do lado direito
da subida até a minha casa
e sobre ir embora.

eu saio correndo
e me escondo dentro do armário.
acendo um isqueiro e vejo
minha sombra projetada
dançar sobre o balcão de um hotel
no interior da França.

ela continua falando
53º a direita
me olhando com os olhos
que estão prestes a derramar
não lágrimas,
mas o verde e o mel -
devido à inclinação.

rafa, ela diz.

eu espirro
e entendo tudo o que
ela fala.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

quando eu peço um expresso (longo)

às vezes eu acho que é
por causa do jeito que as
sílabas do nome dela saem
leves
da minha boca

a primeira se abrindo e pedindo piedade
piedosa
a segunda desliza se fechando
num eterno bico
que ela destrói num segundo
se jogando num beijo para cima de mim
e recua a cabeça num sorriso
cheio de vergonha
que logo se revela uma mentira
tão grande quanto a neblina de toda
manhã

às vezes eu acho
que por tudo isso
eu sento num café
peço um expresso longo
acendo um cigarro
no sol das 16:32
e escrevo romances imaginários
sobre as pessoas que caminham por ali

e a senhora que esperava anos
por ele
sem ele nunca ter um rosto ou um apelido
morria
esquecida no canto do quarto
por cansar de esperar
e ser feia demais e velha demais e e se odiar demais

jogada
com a saia dobrada para cima da cintura
a meia calça vermelha terrivelmente imóvel
tudo silencioso e cinza

agora toma chá com bolachas
num café muito branco e amarelo
enquanto a meia calça tem vida própria
espera por ele quebrar o assobio contínuo
da porta de entrada
e entrar inteiro para ela

ela
vibra e espera

ele vem

já eu

sorrio amassando a carteira de cigarros
acendo um último
tomo um último gole de café
e desço a avenida
me sentindo muito bem

quarta-feira, 4 de maio de 2011

sinal vermelho

eu dirijo e sigo olhando
aquele arroio que divide a

porto alegre que carrego em mim


e quando vejo tudo

com o sol vermelho refletindo

faróis de carros e os meus olhos

se fecham como em uma explosão

dentro do meu estômago que

identifico como felicidade

mesmo odiando a palavra


porque vejo uma beleza tão natural

que me apaixono por todo o lixo

do dilúvio de todas as espécies

e sinto que tenho alguma chance


e quando eu vejo a noite

cair dentro do arroio

eu penso em uma arca e

penso em um café holandês
penso em queijos podres
penso em um beijo esquecido na torre negra

penso em todos os fins de tarde

penso em cheiro de feijão



e de repente o sinal vermelho

grita na minha cara


paro

e me dou conta
que não lembro de dirigir

por uns bons 2km



e meu olho fica umedecido

daquela maneira que os olhos

umedecem quando parece

que tudo é estático e sereno

e que se pode abaixar os braços e nem tentar

porque eu posso ser tão deliciosamente

eu quando não estou por perto



rio tão alto que assusto

uma mulher com olhos como duas rosas

brancas morrendo

que tentava atravessar a rua


então decido que vou escrever

um poema sobre como a POESIA

deve ser fácil
simples

e natural

e tão livre quanto pensar



sopro uma bola de fumaça pela janela

engato a primeira

acelero.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Voz baixa

Não; não estou aqui para gritar
esse é um poema de voz baixa
um vento por baixo da saia, um arrepio, um gemido
talvez porque um pedaço de madeira ainda me
salva
de toda a loucura e de tudo que é velho e opressor
talvez porque eu posso acender um cigarro e
não
me importar com o peso do cigarro
talvez porque minha mão fica mais bonita quando olho de um certo
ângulo
e o ângulo ou a minha mão não têm nada a ver com isso
talvez porque a distância é muito longa a primeira vista
mas
não tenho pressa de sair
talvez porque eu possa fazer um poema de voz baixa e
gritar
com a força de um berrante o meu coração
talvez por não impor sentido ao fato de rir porque
alguém
arregalou os olhos e sorriu perfurando meu ombro esquerdo

esse é só um poema de voz baixa
um sussuro
um sorriso
minha substância
é eu gritando
não pelo amor livre
mas pelo amor livre
de todo o peso que a palavra carrega nas costas.